juliana ali

Tenho sentido uma mudança gradativa em mim, acontecendo aos poucos, talvez nos últimos dois anos, em relação a minha auto imagem. Notei mais forte recentemente, desde que mudei de casa.

Aqui, na casa nova, não tinha nenhum espelho de corpo inteiro. O maior era o do meu banheiro, grandão de largura, mas que de altura chega até minha coxa, por conta da bancada da pia. Nos quartos, nada. Logo que mudei, há quase quatro meses, pensei: “Precisamos comprar um espelho pra ver a gente inteirinho, vou providenciar isso urgente”.

Só que até agora ainda não comprei esse espelho. Desde que estou aqui monto meus looks assim, meio sem olhar, só vendo da coxa pra cima e imaginando que “deve estar bom” da coxa pra baixo. E tá ótimo.

Me liguei que tenho me olhado muito menos no espelho. Às vezes passo o dia todo e não me olho no espelho uma única vez. Nem pra ver se o cabelo tá bom, se apareceu alguma espinha, nada. Esqueço. Não penso nisso.

E demorei pra perceber porque isso foi acontecendo devagarinho, a ficha caiu por causa dessa história de ter priorizado outras coisas na casa nova e não o tal espelho de corpo inteiro.

Já fui uma mulher que se olhou muito no espelho. O tempo todo. O espelho do banheiro, o do quarto, o do carro, a vitrine da loja na rua que nem era espelho mas virou pra eu poder dar uma checadinha no look. Não posso falar por todo mundo, mas no meu caso, noto hoje que isso nunca foi um sinal de vaidade, nem de estar “me achando linda”. Isso sempre foi um sinal de insegurança.

Medo de estar feia, de estar gorda, de estar inadequada aos olhos dos outros e de estar errada quando comparada com os outros. Passei a vida me comparando com outras mulheres. “Será que sou tão magra quanto ela? Eu queria ser tão alta quanto aquela outra. Queria ter o cabelo igual da fulana. Como deve ser bom ser linda como ciclana”. E assim passei muito tempo, olhando para outras mulheres e olhando pra mim mesma no espelho. Sempre gostando do que via nas outras e nunca gostando do que via em mim.

Sempre fui linda. Pode dizer, assim, que sempre fui linda? Eu acho que pode. Sempre fui linda sim. Aliás, os outros também sempre me acharam linda. E eu me achei linda em vários momentos. Mas me achei feia/errada/gorda/fora dos padrões que eu queria estar a maior parte do tempo, a vida inteira. E desconfio que um número enorme de mulheres que você acha linda de morrer se sente exatamente assim, grande parte do tempo também. Ou feia, ou errada, ou gorda, ou fora dos padrões que estão na cabeça dela. “Ah, até parece que as modelos, ou as atrizes, ou aquela blogueira super famosa se sente assim, duvido, ela se acha maravilhosa, porque ela é maravilhosa”. Tá bom então, vai duvidando. Não digo que todas se sentem assim, mas digo que muitas delas se sentem. Elas são como eu e você. Mulheres.

E demora muito pra gente parar de olhar no espelho o tempo todo. Tem gente que nunca para. Ano que vem faço 40 anos. Nunca me senti tão bem. Isso significa que nunca fui tão linda como agora? Não, amor, te garanto que já fui mais linda. Linda talvez não seja a palavra. Já fui mais dentro dos padrões impostos pela sociedade, que é o que o mundo convence a gente que é ser linda: super jovem, super magra, pele esticadinha, tudo no lugar corretíssimo. Eu era assim com vinte anos, e me achava uma bosta. Hoje ainda sou magra (peso os mesmos 53 quilos dos vinte anos, mas confesso que não faço regime desde que tive a Carmen, nem sei se farei mais um dia de regime na minha vida, já cansei de viver com fome), mas meu corpo não tem na-da-a-ver com aquele! Tenho gordurinhas localizadas por todo lado, tenho celulite, o peito caiu, tenho dois filhos e toda uma vida que me deixaram um monte de marcas por aqui e eu nunca fiz nenhuma cirurgia para corrigir nenhuma delas então é o que tem pra hoje – e é o que quero pra hoje mesmo.

Sabe o que é louco? Quando coloco um biquíni me sinto ótima. Quando eu tinha vinte anos e era perfeita, morria de vergonha de usar biquini. Hoje, não tenho vergonha de porra nenhuma. Hoje, as poucas vezes que olho no espelho, acho que tá tudo deboas. Acho que tô linda. Linda de verdade. Pelo menos da coxa pra cima.

beijinho