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O desafio maternidade e o texto da menina que não topou o desafio – e ainda fez um desabafo mega honesto no Facebook – acenderam um debate intenso sobre ser mãe. Todo mundo inflamadíssimo. Por que essa história mexeu tanto com tanta gente?

Antes de tudo, aviso: Esse texto não é para discutir a ferocidade (e a facilidade) com que as pessoas demonizam os outros na Internet – embora o assunto mereça discussão. Nem para discutir a legitimidade do tal do “desafio maternidade” – embora o assunto também mereça discussão.

Esse texto é sobre minha experiência com a maternidade, muito pessoal, e uma mensagenzinha de otimismo para a menina que está odiando seus primeiros dias como mãe.

As pessoas ficaram em choque com o relato da criatura. Como assim, ela está odiando? Como assim, ela odeia ser mãe?

Toda mãe odeia um pouco ser mãe. A coisa saiu demais de proporção, no caso dela. Ela pariu há quarenta dias. Ela está vivendo a pior fase da maternidade. Eu odiei muito os primeiros quarenta dias do nascimento do Teodoro. Da Carmen não. Segundo filho, eu estava tranquila, já sabia tudo. Mas, do Teodoro! Que sofrimento. Fora que, como eu estava perdida, o bebê fica perdido junto. Ele só chorava, eu não sabia o que fazer, chorava também, e assim se instalou um círculo vicioso de puro terror em casa. Foi muito duro. A sensação que eu tinha era que minha vida tinha acabado. Imagine que era um filho desejadíssimo e que eu já tinha 31 anos. Mesmo assim, eu estava ficando maluca e achava que era pra sempre. Me olhava no espelho, via aquela barriga enorme ainda, flácida, e pensava: “O que fiz comigo? O que fiz com a minha vida? Tudo acabou”. E não tive depressão pós parto não, viu?

Eu queria poder dizer pra essa menina, a tal da Juliana, minha xará: “Meu amor. Isso passa. Sua vida não acabou. A vida volta ao normal sim. O bebê se acalma. Você se acalma. A cicatriz cicatriza. A barriga desincha. Em dois meses, você já se sentirá diferente. Em um ano, você nem imagina. Você está no olho do furacão. Vai passar, te prometo.”. Eu queria que alguém tivesse dito isso pra mim, quando o Teo tinha 40 dias.

Porque a verdade é que não é tão grave assim. Mas, no olho do furacão, a gente acha que é. De todos os textos que li sobre esse caso, não vi ninguém falar isso. Vi galera discutindo feminismo (sou feminista com orgulho, não acho que ser mãe é obrigação, acho que é opção), vi galera discutindo aborto (sou 100% pró), mas não vi ninguém acalmando uma mamãe novinha, de primeira viagem, não vi uma mãe se solidarizando com a outra. Uma mãe que passou por isso.

Gente, essa menina já é mãe. Não tem volta. E ser mãe pode ser genial. Mesmo uma maternidade que começa aos trancos e barrancos. Todas começam, ou quase todas.

Não quero romantizar. Freud dizia: “Quando nasce uma mãe, nasce uma culpa”. Mais pura verdade. Sofro todo dia. Tenho medo de estar fazendo errado o tempo inteiro. De ter dado bronca leve demais, de ter dado bronca pesada demais. De não ter entendido, de não ter defendido, de ter defendido.

E os gastos? Enormes. Financeiros, emocionais, gastos de tempo.

Não é fácil. Mas sabe, Juliana?

(E aqui faço um parênteses para pedir desculpas às pessoas que acham que não pode dizer as belezas da maternidade. Mas eu acho que pode. Pode porque tem muita mãe que agora já é mãe e não queria e não consegue ver o lado bom. Pode porque tem gente que quer ser mãe e tem medo. Pode porque ver o lado bom da vida é saudável.)

Depois que o furacão passar, existe a chance de você amar esse filho. Amor é construído, sabe? Não acredite nos filmes que te dizem que você é obrigada a amar esse bebê só de bater os olhos nele. Fica calma. Dê tempo ao tempo. Se permita esperar e sentir o que você sentir. E espere.

Juliana, hoje, sete anos depois do nascimento do meu primeiro filho, a vida é boa. Mesmo com todo o lado ruim. Porque, sabe, não importa o que você escolha na vida, não tem bom sem ruim. Você sempre abre mão de algo, não importa o que escolha.

Ficar ao lado dos meus filhos é um grande prazer. A presença deles me alegra quando estou triste. Me acalma quando estou nervosa. Me encoraja quando estou sem ânimo.

Meus filhos são minha maior felicidade, hoje em dia. Felicidade pura, legítima, real.

Toda vez que me pergunto: “O que você faria se pudesse voltar no tempo?”. Eu teria eles tudo de novo. Teria esses filhos umas mil vezes.

Mas viu, Juliana, espera. Existe a chance de um dia, logo logo, você se sentir como eu. Pode ser que não, a gente não sabe, talvez você odeie mesmo, pra sempre. Se você odiar, tudo bem, Juliana! Ninguém é obrigada a amar a maternidade. Você não é e nunca será uma má pessoa se odiar ser mãe pra sempre. Você merece respeito.

Mas quero dizer pra Juliana, pode ser, pode só ser, que esse filho seja, um dia, a maior alegria da sua vida.

ju e as criancas