thanks mom

Quando eu tinha 14 anos, minha mãe escreveu o texto abaixo para a Revista NOVA. Na época, ela era diretora de redação da revista, que ela mesma lançou no Brasil, aliás (orgulho). Esse texto, chamado “Um Momento de Felicidade”, acabou virando parte de um livro de mesmo nome, uma coleção de crônicas inspiradoras escritas por mamãe.

Hoje, DIA DAS MÃES, vou dividir com vocês o que, pra mim, é a coisa mais bonita que ela já escreveu (e olha que ela já escreveu muita coisa ehehheeh). E define bem o que é ser mãe. Eu, que sou mãe também agora, mãe do Teodoro lindo do meu coração, consigo entender mais do que nunca as palavras que você vai ler abaixo. E acho que todas as outras mães do mundo também…

UM MOMENTO DE FELICIDADE – FATIMA ALI

O sol saiu depois de muitos dias de chuva. A luz entra pelas grandes janelas do escritório, que dá para um pequeno jardim. É domingo. No rádio, um quarteto de Mozart. Minhas filhas, Juliana, de catorze anos, e Mariana, de onze, estão afundadas em um sofá, folheando pastas que acabaram de descobrir nos meus arquivos: cartas, bilhetes e desenhos de Juliana para mamãe, de Mariana para Juliana, de Juliana para Miguel, o irmão de quatro anos.

Elas se deliciam com os traços ingênuos, com as palavras e imagens carinhosas, os versinhos, as declarações de amor, a carta pedindo desculpas, as lembranças dos amigos da escola, a minha saudade de quando viajei a trabalho.

Há um sossego, uma paciência, um aconchego, desses que normalmente só existem nos desejos da gente. Permaneço de pé, parada, lambendo, sorvendo, respirando esse intervalo de bem-estar que a vida está me proporcionando. Minhas tristezas foram para longe, a alma ficou leve. “Que legal que você guardou isso, mãe”.

Tudo, guardei tudo: roupas de bebê, brinquedos favoritos, o sapatinho branco, a fantasia de odalisca, os dentes que caíram, a pulseira de identificação no berçário, a de bolinhas de ouro, todas as receitas do pediatra, por ordem de data. Esses tesouros guardados atestam meu deslumbramento com os filhos, o tempo que passou, as angústias que vivi, os gritos que sufoquei, a dor quem e enrijeceu.

Não foi fácil para mim ter e criar os filhos. Desesperei-me com o choro quase ininterrupto dos primeiros meses de vida de Juliana. Eu, tão acostumada a enfrentar situações complexas, perdi o chão: atormentei o pediatra, infernizei a vida de babás, enchi a paciência das professoras do maternal. Sofri angústias indescritíveis: ao ver sangue jorrando da cabeça do Miguel, ferido por uma pancada na quina do armário da copa; ao procurar feito louca a Mariana perdida na praia; ao ouvir o médico declarar que Juliana tinha um sopro no coração; ao envolver Mariana com toalhas molhadas para debelar uma febre de 40 graus, que durou uma noite inteira em um verão no Guarujá; nas vezes em que me atrasei no trabalho e as encontrei chorando na porta da escola.

E a culpa? De trabalhar, de sair de casa com uma criança implorando para ir junto, de ter perdido a paciência, de não ter precisado dar aquele tapa, de não ter acreditado que a dor era de verdade, de ter esquecido de comprar o presente de aniversário do amigo, de ter-me separado do pai. E, mais grave, buscando a perfeição, posso ter transmitido a errada noção d eque mães e pessoas devem ser perfeitas.

Havia ainda quem dissesse que eu superprotegia as crianças, que elas iam tornar-se inseguras, dependentes e coisas do gênero. As meninas estão grandes. Felizmente, não parecem inseguras nem dependentes.

O prazer desta visão, nesta manhã de domingo, me basta. Inunda-me de alegria a idéia de que nem tudo se perde na confusão da vida e que este imperecível momento de ternura é o prêmio do meu amor.

juliana ali fatima ali

Deu tudo certo, mamãe. E eu te amo.