Então eis que estou vendo o que rola no mundo internético e me deparo com um texto de Eugênio Bucci, colunista da revista Época, intitulado “Por que nunca entrei no Facebook”.

O texto já é antigo, vi que foi escrito em junho, mas ele chegou aos meus olhinhos hoje, por acaso. Fiquei absolutamente pe-tri-fi-ca-da com o que li. Poucas vezes na vida dei de cara com palavras tão arrogantes.

Se você quiser ler tudo, clica aqui, mas separei minhas partes “preferidas” para comentar.

Bucci, em sua coluna, está explicando as razões pelas quais não tem um perfil no Facebook. Olha só.

“Quando um sujeito morre – isso acontece –, o perfil do defunto fica lá, intacto. (…) Os outros usuários, estes vivos, mas desavisados, podem “curtir” até cansar. O perfil não se mexe nem sai de cena. (…) Também por isso, ali não entro nem morto.”.

Quer dizer então que os meros mortais (sem trocadilho) não têm direito de ter algo seu imortalizado. Eugênio Bucci pode. Afinal, o que Bucci escreveu durante sua vida vai sobreviver a ele, igualzinho a um perfil no Face.

Seu “perfil” nos obituários dos jornais, das revistas Época e Veja, estará lá, quando ele morrer. Suas fotos, o lugar onde ele fez faculdade, a mulher e os filhos que deixou, suas palavras, continuarão aí, pelo mundão. Ele pode.

Mas gente comum não pode. Por que não? Qual o problema em deixar um “legado internético”? Eugênio Bucci vai ter um. Com comentários, mensagens de pesar e até vários “curtir” em sua homenagem. O resto da galera, que não tem voz nas revistas, não pode?

Não entra nem morto? Mas você já está lá, meu senhor! Esse seu texto, onde você critica tanto esse povo desavisado que freqüenta o Facebook, tem mais de 100 “curtir”! Imagina só!

Mas o que ele mais detesta mesmo são os anúncios: “Ele é ainda mais funéreo que a presença dos clientes mortos que não pagam nem arredam pé. Ali, a mercadoria é o freguês, o que vai ficando cada dia mais evidente, com denúncias crescentes sobre o uso de informações pessoais mercadejadas pelos administradores do site.”.

Isso me parece extremamente ingênuo. Não vou aqui entrar em uma discussão eterna sobre o mercado publicitário, mas até onde sei, “mercadejar” o uso de informações pessoais rola há muito tempo. Você nunca preencheu um cadastro? Nunca abriu conta no banco? Nunca recebeu uma propaganda pelo correio? Nunca participou do sorteio do supermercado ou do shopping? Já ouviu falar de mailing?

Não estou defendendo tudo isso, só estou dizendo que é uma realidade muito anterior ao Facebook. Não foram os administradores do site que inventaram essa maneira de fazer marketing. E quem não tem perfil no Face não está ileso a ser objeto de marketing sem consentimento.

E ele fala mais (essa, pra mim, é a melhor):

“– Não, não estou no Facebook.
E acho que tenho razão. Errados estão os 845 milhões de viventes que, em todas as línguas, em todos os países, puseram lá suas fotografias (tem gente sem camisa!) ao lado de seus depoimentos confessionais.”

Ele está certo. Erradas estão 845 milhões de pessoas! Jesuis! Oitocentos e quarenta e cinco MILHÕES de pessoas erradas. Eugênio Bucci certo. Olha, não vejo mal em ir contra a maioria. Muitas vezes, é até um ato corajoso. Pode ser estúpido em alguns casos, mas é corajoso. Afinal, não é fácil estar sozinho quando todo mundo pensa de outro jeito. Respeito isso.

Mas colocar seu ponto de vista dessa maneira? Categórica, prepotente, irônica? Chamar galere todinha de babaca? Se recusar a ver o outro lado? Se colocar em um pedestal onde ninguém mais PODE? Cadê humildade, produção? E respeito?

Se tem gente que quer colocar foto sem camisa na net, qual o problema? Hello, Larry Flynt tomou um tiro em prol das mulheres peladas – da censura na verdade, mas das mulheres peladas fica mais engraçado – há décadas, e esse cara tá horrorizado com um mano na praia, no Face, em 2012?

E os depoimentos confessionais, então? Se foi um escritor famoso jogando pra fora todas as suas angústias em um poema, tudo bem? Se foi um músico sensível e apaixonado, tudo bem? Mas uma pessoa anônima, quer dizer, 845 milhões de anônimos, estão proibidos? NÃO PODE? Por que?

Sou a favor de todo mundo poder mostrar o tórax, a bunda, a alma, se quiser. Acho lindo que um “qualquer” possa aparecer, de repente. Ser genial, de repente. Ser um débil mental, de repente. Mas ser visto, ouvido, lido, de repente. Nem que seja para dez amigos, que ficarem olhando o perfil de um fulano que morreu e sentirem saudade quando virem aquela foto daquele cara bacana em um dia gostoso que passaram juntos na praia.